quarta-feira, abril 27, 2011

Morreu um grande historiador: Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011)

Morreu hoje um dos grandes historiadores portugueses do século XX: Vitorino Magalhães Godinho.
Obras como "A economia dos descobrimentos henriquinos", "Os Descobrimentos e a Economia Mundial" ou, especialmente, "A Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa" deveriam ser de leitura obrigatória em algumas cursos do Secundário com pendor histórico/humanístico. E dariam ainda hoje boas lições a alguns dos nossos actuais governantes!

sábado, abril 23, 2011

Desabafos de Outros: Dias de Humilhação

Passos Coelho disse-o com despudorada clareza: o programa de governo do PSD será o do FMI. E o mesmo acontecerá necessariamente com o do PS e o do CDS, partidos que, juntamente com o PSD, continuam em reuniões com os mandatários do FMI, BCE e UE para receber instruções ("negociações", chamam-lhes eles: o FMI, BCE e UE ditam e PS, PSD e CDS tomam nota, atrevendo-se eventualmente a alguma sugestão respeitosa...). Restam os programas do BE e do PCP, que conterão certamente medidas alternativas, mas não poderão, seja numa improvável participação no Governo seja na AR, alterar nada do que já tiver sido decidido pela coligação FMI/PS/PSD/CDS.

Pode, pois, perguntar-se para que é que haverá eleições senão para, à falta de pão, oferecer ao país duas ou três semanas de circo. As políticas para os próximos anos estarão, de facto, determinadas antes das eleições e independentemente dos resultados eleitorais e, depois delas, qualquer medida com impacto orçamental, mínimo que seja, do Governo ou do Parlamento, terá que ir a despacho aos tutores do país.

A suspensão da democracia sugerida por Manuela Ferreira Leite durará pelo menos três anos, durante os quais nos caberá tão só eleger capatazes que executem as ordens de Washington (FMI), Frankfurt (BCE) e Bruxelas (Comissão).

Por muito menos foi a estátua de Camões, quando do ultimato inglês, coberta de crepes pelos antepassados políticos do actual PS.

terça-feira, abril 19, 2011

A propósito do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios

Na passada segunda-feira, dia 18 de Abril, foi Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Por coincidência, ou não, terminei nesse dia o resumo para a apresentação que irei fazer no Encontro de Portimão, do próximo dia 3 de Junho, subordinado ao tema "Áreas industriais e comunidades operárias".
Irei aproveitar para, mais uma vez, dar voz ao abandonado e silencioso Museu da Cortiça e ao seu espaço vital, a Fábrica do Inglês.
Aqui deixo o aperitivo: 

PATRIMÓNIO INDUSTRIAL CORTICEIRO EM RISCO: o caso da Fábrica do Inglês
 Aquele que é o mais bem preservado núcleo do património corticeiro português do século XIX, quiçá também mundial, está hoje em risco de degradação e abandono.
Não exageramos, já que a Fábrica do Inglês, em Silves, conserva em várias aspectos características que fazem deste conjunto um exemplar único entre a herança industrial corticeira neste país, actual líder destacado no sector. No que respeita à sua arquitectura, no essencial hoje preservada, e já de si inédita no mundo industrial oitocentista; no que respeita à tecnologia, testemunha da passagem da manufactura para a maquinofactura, com exemplares únicos ou raríssimos da evolução da transformação da cortiça; no que respeita à memória documental, ou de arquivo, seja pelas peças artesano/industriais que possui, seja pela antiguidade e importância da sua documentação escrita que remonta aos inícios do último quartel do século XIX. Enfim, pelo facto de se constituir como última memória dum passado industrial duma cidade que se notabilizou pelo seu movimento operário e político durante o Estado Novo.
A Fábrica do Inglês e o seu museu é tudo isso. É assim urgente acudir à sua eventual degradação perante as dificuldades financeiras da sociedade anónima que a detém. Ainda que tenha sido esta, em boa hora, quem acorreu à preservação de um património em vias de se perder, aliando então de forma praticamente inédita a cultura ao turismo/lazer, é hoje evidente que a mesma sociedade já não possui a capacidade para o fazer. A recente classificação da Fábrica do Inglês como imóvel de interesse concelhio, embora aquém da importância que verdadeiramente tem, confere-lhe porém, um estatuto de protecção que deverá ser agora utilizado pelas autoridades públicas, designadamente a Câmara Municipal de Silves, mas não só, para colocarem a salvo aquilo que é, no meu entender, um património histórico/industrial que não podemos, neste Portugal da cortiça que somos, nos dar ao luxo de perder.

terça-feira, março 22, 2011

Bilderberg e(ou) banqueiros são os arquitectos do estado a que chegou este nosso mundo

É o aviso, preocupante, que nos deixa aqui Alex Jones.
Se têm dúvidas, reparem só quem continua, apesar da "dita crise", a apresentar milhões de lucros (nesta fase  incompreensivelmente crescentes) ano após ano...

sábado, março 19, 2011

Se isto não é talento, é o quê?

É assim que realmente me sinto, Manuel Pina!

Sou professor, e nada mais reconfortante do que alguém que o não é vir dizer aquilo que realmente nos vai na alma. É dar voz ao que nós próprios não somos capazes de exteriorizar, exorcizar (nem que seja para rimar!), é dar testemunho insuspeito de que não é paranóia corporativa ou pessoal.
Manuel A. Pina fá-lo frequentemente, no que me diz respeito. De forma concisa, informada, irónica, sempre certeira, e fico-me por aqui nos adjectivos.
Por isso, aqui fica mais um desabafo pela voz de outro, escrito em 2010, mas que bem poderia ser de 2011, já sem a carrancuda Maria de Lurdes, substituída entretanto pela sorridente Isabel Alçada:

"A Grande Evasão", Por Outras Palavras, 2010
Quem pode, foge. Muitos sujeitam-se a perder 40% do vencimento. Fogem para a liberdade. Deixam para trás a loucura e o inferno em que se transformaram as escolas. Em algumas escolas, os conselhos executivos ficaram reduzidos a uma pessoa. Há escolas em que se reformaram antecipadamente o PCE e o vice-presidente. Outras em que já não há docentes para leccionar nos CEFs. Nos grupos de recrutamento de Educação Tecnológica, a debandada tem sido geral, havendo já enormes dificuldades em conseguir substitutos nas cíclicas. O mesmo acontece com o grupo de recrutamento de Contabilidade e Economia. Há centenas de professores de Contabilidade e de Economia que optaram por reformas antecipadas, com penalizações de 40% porque preferem ir trabalhar como profissionais liberais ou em empresas de consultadoria. Só não sai quem não pode. Ou porque não consegue suportar os cortes no vencimento ou porque não tem a idade mínima exigida. Conheço pessoalmente dois professores do ensino secundário, com doutoramento, que optaram pela reforma antecipada com penalizações de 30% e 35%. Um deles, com 53 anos de idade e 33 anos de serviço, no 10º escalão, saiu com uma reforma de 1500 euros. O outro, com 58 anos de idade e 35 anos de serviço saiu com 1900 euros. E por que razão saíram? Não aguentam mais a humilhação de serem avaliados por colegas mais novos e com menos habilitações académicas. Não aguentam a quantidade de papelada, reuniões e burocracia. Não conseguem dispor de tempo para ensinar. Fogem porque não aceitam o novo paradigma de escola e professor e não aceitam ser prestadores de cuidados sociais e funcionários administrativos.
'Se não ficasse na história da educação em Portugal como autora do lamentável 'pastiche' de Woody Allen 'Para acabar de vez com o ensino', a actual ministra teria lugar garantido aí e no Guinness por ter causado a maior debandada de que há memória de professores das escolas portuguesas. Segundo o JN de ontem, centenas de professores estão a pedir todos os meses a passagem à reforma, mesmo com enormes penalizações salariais, e esse número tem vindo a mais que duplicar de ano para ano.
Os professores falam de 'desmotivação', de 'frustração', de 'saturação', de 'desconsideração cada vez maior relativamente à profissão', de 'se sentirem a mais' em escolas de cujo léxico desapareceram, como do próprio Estatuto da Carreira Docente, palavras como ensinar e aprender. Algo, convenhamos, um pouco diferente da 'escola de sucesso', do 'passa agora de ano e paga depois', dos milagres estatísticos e dos passarinhos a chilrear sobre que discorrem a ministra e os secretários de Estado sr. Feliz e sr. Contente. Que futuro é possível esperar de uma escola (e de um país) onde os professores se sentem a mais?

Manuel António Pina

terça-feira, março 15, 2011

Nuclear, não obrigado!

Foi exactamente há trinta e cinco anos anos que muitos (eu incluído, só na manif. de 78) marcharam rumo a Ferrel, concelho de Peniche, em apoio da sua população, ameaçada pela intenção de ali se instalar uma central nuclear. Em boa hora esse protesto vitorioso se fez, pois foi o primeiro passo para impedir que Portugal se juntasse ao grupo de risco dos países que utilizam essa perigosa energia.
A dita "energia segura", barata, está aí de novo em notícia, pelas piores razões.
Que dizem agora os paladinos da dita, ainda há bem pouco tempo tão convictos?
No que me diz respeito, é discussão encerrada. 
Nuclear, não obrigado!

segunda-feira, março 14, 2011

Duas numa, nem que só fosse pela catarse!

No passado dia 12 cumpri com uma obrigação cívica, já que não me contento em votar de 4 em 4. Posso agora continuar, de cabeça erguida e reforçada moral, a levantar em qualquer lado a voz da minha oposição ao sentido da actual governação deste país.
Estive em Lisboa e, com algum malabarismo omnipresencial, consegui estar em duas manifestações: na manif convocada pela plataforma sindical dos professores que do Campo Pequeno seguiram para o cerco à 5 de Outubro ameaçando voltar à luta que revirou o país em 2008/2009, e também entre os enrascados que desfilaram pela Avenida da Liberdade (releve-se o sublinhado), numa demonstração cívica apartidária sem paralelo desde os anos quentes de Abril. Espero que o governo e a classe política deste país tirem ilações do que à sua volta vai acontecendo...
Aqui fica a singela reportagem...
(liguem o som)

terça-feira, março 08, 2011

Tripolias


Vou tentar falar sem dizer nada...

Ainda, e a propósito do "caso" Homens da Luta, aqui fica também Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo que sabem do que falam quando, e assim penso, aqui falam de festivais e da arte de "falar sem dizer nada".


Eu vou tentar, prometo, que destes versos
Não saia uma canção mal comportada
Eu vou tentar não falar do que acontece
Eu vou tentar falar sem dizer nada.

Não vou, por isso, falar da exploração
Nem sequer do amor à Liberdade;
Da luta pela terra e pelo pão
E do apego à Paz da humanidade.

Vou tentar não falar do que acontece
Vou tentar falar sem dizer nada

Vocês preferem que eu vos fale
De grilos a cantar e gambuzinos?
A vossa vontade será feita
Eu calarei a fome dos meninos.

Vocês preferem que eu vos cante
Sem vos lembrar os tiros e as facas?
A vossa vontade será feita
Eu calarei o frio das barracas.

Vou tentar não falar do que acontece
Vou tentar falar sem dizer nada

Vocês preferem que eu vos fale
Com um sorriso a iluminar-me as trombas?
A vossa vontade será feita
Eu calarei o estilhaçar das bombas.

Vocês vão gostar que eu não cante
A luta de nós todos todo o ano
A vossa vontade será feita
Não falarei do povo alentejano

Vou tentar não falar do que acontece
Vou tentar falar sem dizer nada

Não falarei do luxo e da miséria
Não falarei do vício e da canseira
Não falarei das damas, e das mulheres
De tudo o que se passa à nossa beira

Não falarei do Amor, nem da Verdade
Nem do suor deixado no trigal;
Eu não ofenderei vossas excelências
Nem a civilização ocidental!

domingo, março 06, 2011

E viva a Luta!

Em tantos anos de Festival da Canção, pós 25 de Abril, nunca tal se tinha visto: vencer a irreverência. Antes sim, quando Simone com Desfolhada ou Fernando Tordo com a Tourada, abanaram consciências.
Agora parece que a luta voltou ao palco, com  a despretensiosa "Luta é Alegria" e o apelo de Jel à mobilização para o dia 12 de Março. Será um sinal dos tempos ou dos ventos sueste que sopram de África?
Ficamos agora curiosos de os ver em pleno coração desta Europa decadente, em terras de Merkel, cantar:


quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Conheço uma cidade...


- Que nas suas terras produz a melhor laranja do mundo;
- Que entre os seus vários monumentos tem um castelo mourisco que é o mais bem preservado do seu género em Portugal e, talvez, em toda a Península Ibérica;
- Que no seu litoral tem duas das mais belas praias de Portugal e, por conseguinte, do mundo;
- Que no rio que a banha, o Arade, o maior nascido no Algarve, guarda ainda espécies únicas, como o Squalius Aradensis;
- Que não sendo já sede episcopal, possui uma igreja cuja majestade obriga quem a nomeia a falar ainda de uma “Sé”;
- Que apesar de o não ser, ainda hoje é: uma cidade;
- Que tem um museu industrial já premiado como melhor museu europeu e que alberga o maior arquivo industrial corticeiro do mundo e, contudo, está fechado;
- Foi um importantíssimo centro cultural na época árabe, ombreando com as maiores cidades do então al-Andalus;
- É cabeça de um dos maiores concelhos algarvios e nacionais, possuindo uma diversidade natural e geográfica ímpar que se estende do Litoral à Serra;
- Três das maiores barragens algarvias estão situadas no seu alfoz, apesar do aproveitamento que delas é feito ser reduzido. É no seu concelho, também, que se situa a maior reserva subterrânea de água de toda a região algarvia;
- Para além das especificidades naturais já referidas, é na sua área que aflora o maior filão de arenito vermelho do Algarve, por isso justamente chamado de Grés de Silves.
Essa cidade é Silves, cidade e concelho.
Com tanto para vencer, há algo certamente por fazer, para merecer…!

sábado, janeiro 15, 2011

A faísca no palheiro

A história que o semanário Sol conta, na sua edição de hoje, impressionou-me. Não só pela violência do destino de Mohamed Bouazizi, mas pelo facto de, enquanto historiador, ou amante da História, estar pouco inclinado para sobrevalorizar os protagonismos pessoais nos desenvolvimentos históricos de ruptura, revolucionários, como os que estão a ocorrer na Tunísia. E por mais uma razão: o facto de me lembrar Portugal, e de que o  que aconteceu na Tunísia poder estar para acontecer neste nosso país.
Basta a faísca no palheiro...
Ora leiam:
Tunísia: O desempregado que derrubou um ditador
 O doloroso suicídio de um jovem no desemprego conduziu à queda do homem que, com punho de ferro, dirigia a Tunísia há 23 anos. Mohamed Bouazizi é o mártir de uma revolução inédita no Norte de África.
Mohamed Bouazizi teria pouco mais de 20 anos e era um apaixonado pelas Ciências Informáticas (ao contrário do que foi inicialmente avançado, a imprensa francófona não garante que o jovem se tenha licenciado na área). Sonhava com uma carreira no mundo das novas tecnologias. Só não contava com a pena actualmente imposta a cerca de 60% dos diplomados tunisinos.
Num país onde o ditador Ben Ali e a sua família ainda controlam a economia após uma vaga pouco transparente de privatizações, o trabalho está reservado àqueles que têm sorte ou aos que gozam de relações privilegiadas com a diminuta e poderosa elite de Tunes. Na Tunísia, como em outros tantos países, não são as qualificações ou o mérito que determinam o sucesso. É antes o nome, o casamento ou a filiação partidária.
No desemprego, Bouazizi viu-se forçado a vender frutas e legumes nas ruas da sua cidade natal do centro-oeste, Sidi Bouzid, para alimentar a família. Mas não tinha a necessária licença de comércio, difícil de obter no labirinto da burocracia e corrupção tunisina. A 17 de Dezembro de 2010, a polícia confiscou-lhe a banca e a balança. Segundo testemunhos locais, terá sido agredido e humilhado pelas autoridades.
Nessa mesma sexta-feira, Bouazizi deslocou-se à autarquia de Sidi Bouzid para tentar regularizar a situação. Não conseguiu. Com o dinheiro que restava, comprou um litro de gasolina. Despejou o combustível sobre a cabeça e imolou-se pelo fogo.
Com ele, incendiou a revolta dos tunisinos. A notícia do radical protesto foi inicialmente censurada pela imprensa estatal, mas a história espalhou-se pelas redes sociais da Internet, como o Facebook, o Twitter e o YouTube. Milhares de jovens desempregados começaram a sair às ruas. Vários licenciados sem trabalho, como Houcine Néji, de 24 anos, seguiram o exemplo de Bouazizi e cometeram suicídio pelo fogo ou subindo a postes de alta tensão.
Apesar dos ferimentos graves, Bouazizi não morreu de imediato. Foi transferido para unidade de queimados do hospital de Ben Arous, nos arredores da capital tunisina Tunes. Quando o regime pensava ainda poder conter a vaga de contestação, o Presidente foi visitá-lo. Desejou-lhe as melhoras e prometeu prestar-lhe todo o auxílio possível.
Mas Ben Ali e Mohamed Bouazizi eram dois homens condenados que se olhavam mutuamente. O jovem de 23 anos morreu a 4 de Janeiro. Milhares compareceram no funeral, no dia seguinte. «Hoje choramos a tua morte, amanhã vamos fazer chorar quem te matou», era um dos slogans na cerimónia transformada em comício.
Não se sabe se Bouazizi ter-se-á apercebido da revolta que despoletara. O que é certo é que não assistiu à sua conclusão. Ao fim de quase um mês de violentos protestos que vitimaram perto de uma centena de pessoas (pouco mais de 20, segundo o regime), o Presidente Ben Ali dissolveu sexta-feira o Parlamento e fugiu do país. Segundo as últimas informações, o ditador deposto encontra-se na Arábia Saudita. A Tunísia, pela primeira vez após séculos de colonialismo e décadas de autoritarismo, encontra-se entregue aos cidadãos.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Desabafos de Outros: Motivos de Vergonha


MOTIVOS DE VERGONHA
Há hoje em Portugal, até onde é possível fazer contas, mais de 300 mil pessoas que passam fome e dependem, para sobreviver, da ajuda de instituições como o Banco Alimentar Contra a Fome e outras. "Recebemos todos os dias pedidos de ajuda de pessoas sem dinheiro para comer, para medicamentos, renda, água ou uma botija de gás para cozinhar", diz a AMI ao DN. "Já não são só os sem-abrigo a procurar as carrinhas de distribuição de comida", acrescenta Heloísa Teixeira, da Legião da Boa Vontade. E, depois, há ainda a chamada "pobreza envergonhada", que para já não procura ajuda porque a vai conseguindo, designadamente a alimentar, junto de amigos, vizinhos ou familiares, e da qual não se conhece a verdadeira dimensão.

Cavaco Silva tem pois todos os motivos para, como disse, se sentir envergonhado com a situação de fome que muitos portugueses hoje vivem.

Mas deveria sentir-se também envergonhado, e deveria dizê-lo, por, simultaneamente, outros portugueses viverem na mais escandalosa abundância (como sucedeu nos tempos das vacas gordas dos fundos comunitários em que foi primeiro-ministro e em que nasceu o Banco Alimentar Contra a Fome), e banca e grandes empresas todos os dias anunciarem lucros da ordem dos milhões que, na maior parte dos casos, irão parar a "offshores", enquanto avidamente disputam a pobres e desempregados as cada vez mais escassas verbas com que o Estado ainda os vai apoiando.
(Fonte: Jornal de Notícias, 15 de Dezembro de 2010)

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Antes de morrer escolham a freguesia!

Morremos. Os munícipes, ou fregueses, que cá ficam pagam com os seus impostos as despesas de manutenção e outras respeitantes ao cemitério da freguesia.
Mas nem todos temos igual tratamento, e uns valem mais que outros, mesmo depois de mortos.
Em Silves um morto, entre os 10 768  vivos existentes, vale 0,72 €, disponibilizados, é claro, pela autarquia. Se um munícipe for a enterrar em S. Marcos da Serra, onde restam 1533 fregueses depois de eu morrer, a Câmara já dá 10 euros, e em Tunes 7,6 euros, mesmo que só fiquem para morrer 2021!
Em Messines os mortos têm direito a 1,81 euros, e ainda faltam morrer 8 490….depois de mim. São mortos que pouco interessam, como os de Silves, não votaram no partido certo.
São estas as contas, em simples matemática (População vs Verbas), que estão presentes, só numa das colunas da proposta de transferência para as Juntas de Freguesia. Outras há!

Façam a prova dos nove ou, caso queiram, façam como alguns outros, esqueçam-se, passando a consoada à volta do Limiano.
Mas façam favor: não morram em 2011, seria inconstitucional, porque até os mortos devem ter tratamento igual.

domingo, dezembro 05, 2010

Desabafos de outros: Os "princípios" e os fins, por Manuel Pina





Com os bons ofícios dos mesmos do costume, o PS e o PSD, acrescidos do apêndice do costume, o CDS, grandes grupos económicos escaparão também, como os "boys" das empresas públicas, aos "sacrifícios para todos". O truque, no caso, é antecipar da distribuição de milhões em dividendos que só deveriam ser pagos em 2011. Assim, empresas como a PT, a Portucel ou a Jerónimo Martins furtar-se-ão (imoralmente, a crer nos arroubos de moralidade fiscal de Sócrates e Teixeira dos Santos) aos aumentos de impostos que trabalhadores e empresas serão obrigados a suportar em nome da redução do défice; défice resultante, é bom que se lembre, da irresponsabilidade financeira de governos do PS, PSD e CDS e de que foram principais usufrutuários os grandes grupos económicos.

Para tal ser possível, o líder parlamentar do PS não hesitou em chantagear com a ameaça de demissão os colegas de bancada que pretendiam votar a tributação da distribuição antecipada de dividendos. No final, visivelmente confortado, Assis falou em "princípios", em "responsabilidade" e em "segurança jurídica".

Infelizmente para os portugueses não accionistas de coisa nenhuma, Assis não tinha ainda esses princípios há seis meses, quando, a meio do ano fiscal, PS e PSD (apressadamente, de modo a apanhar as deduções dos subsídios de férias) aprovaram, com efeito retroactivo e à revelia de qualquer "segurança jurídica", o aumento do IRS.
por Manuel Pina

Desabafos de outros: "Devem-me dinheiro" de Mário Crespo

Inauguramos hoje uma nova rubrica: Desabafos de Outros.
Sob este título englobaremos textos de outros, nos quais nós, por uma ou outra razão, nos revemos.
Ficarão estes artigos, em conjunto, directamente disponíveis através da ligação com o mesmo nome, na barra lateral direita, ou através das minhas etiquetas.
Começo hoje com um texto de Mário Crespo: 
Devem-me Dinheiro

José Sócrates em 2001 prometeu que não ia aumentar os impostos. E aumentou. Deve-me dinheiro. António Mexia da EDP comprou uma sinecura para Manuel Pinho em Nova Iorque. Deve-me o dinheiro da sinecura de Pinho. E dos três milhões de bónus que recebeu. E da taxa da RTP na conta da luz. Deve-me a mim e a Francisco C. que perdeu este mês um dos quatro empregos de uma loja de ferragens na Ajuda onde eu ia e que fechou. E perderam-se quatro empregos. Por causa dos bónus de Mexia. E da sinecura de Pinho. E das taxas da RTP. Aníbal Cavaco Silva e a família devem-me dinheiro. Pelas acções da SLN que tiveram um lucro pago pelo BPN de 147,5 %. Num ano. Manuel Dias Loureiro deve-me dinheiro. Porque comprou por milhões coisas que desapareceram na SLN e o BPN pagou depois. E eu pago pelo BPN agora. Logo, eu pago as compras de Dias Loureiro. E pago pelos 147,5 das acções dos Silva. Cavaco Silva deve-me muito dinheiro. Por ter acabado com a minha frota pesqueira em Peniche e Sesimbra e Lagos e Tavira e Viana do Castelo. Antes, à noite, viam-se milhares de luzes de traineiras. Agora, no escuro, eu como a Pescanova que chega de Vigo. Por isso Cavaco deve-me mais robalos do que Godinho alguma vez deu a Vara. Deve-me por ter vendido a ponte que Salazar me deixou e que eu agora pago à Mota Engil. António Guterres deve-me dinheiro porque vendeu a EDP. E agora a EDP compra cursos em Nova Iorque para Manuel Pinho. E cobra a electricidade mais cara da Europa. Porque inclui a taxa da RTP para os ordenados e bónus da RTP. E para o bónus de Mexia. A PT deve-me dinheiro. Porque não paga impostos sobre tudo o que ganha. E eu pago. Eu e a D. Isabel que vive na Cova da Moura e limpa três escritórios pelo mínimo dos ordenados. E paga Impostos sobre tudo o que ganha. E ficou sem abonos de família. E a PT não paga os impostos que deve e tenta comprar a estação de TV que diz mal do Primeiro-ministro. Rui Pedro Soares da PT deve-me o dinheiro que usou para pagar a Figo o ménage com Sócrates nas eleições. E o que gastou a comprar a TVI. Mário Lino deve-me pelos lixos e robalos de Godinho. E pelo que pagou pelos estudos de aeroportos onde não se vai voar. E de comboios em que não se vai andar. E pelas pontes que projectou e que nunca ligarão nada. Teixeira dos Santos deve-me dinheiro porque em 2008 me disse que as contas do Estado estavam sãs. E estavam doentes. Muito. E não há cura para as contas deste Estado. Os jornalistas que têm casas da Câmara devem-me o dinheiro das rendas. E os arquitectos também. E os médicos e todos aqueles que deviam pagar rendas e prestações e vivem em casas da Câmara, devem-me dinheiro. Os que construíram dez estádios de futebol devem-me o custo de dez estádios de futebol. Os que não trabalham porque não querem e recebem subsídios porque querem, devem-me dinheiro. Devem-me tanto como os que não pagam renda de casa e deviam pagar. Jornalistas, médicos, economistas, advogados e arquitectos deviam ter vergonha na cara e pagar rendas de casa. Porque o resto do país paga. E eles não pagam. E não têm vergonha de me dever dinheiro. Nem eles nem Pedro Silva Pereira que deve dinheiro à natureza pela alteração da Zona de Protecção Especial de Alcochete. Porque o Freeport foi feito à custa de robalos e matou flamingos. E agora para pagar o que devem aos flamingos e ao país vão vendendo Portugal aos chineses. Mas eles não nos dão robalos suficientes apesar de nos termos esquecido de Tien Amen e da Birmânia e do Prémio Nobel e do Google censurado. Apesar de censurarmos, também, a manifestação da Amnistia, não nos dão robalos. Ensinam-nos a pescar dando-nos dinheiro a conta gotas para ir a uma loja chinesa comprar canas de pesca e isco de plástico e tentar a sorte com tainhas. À borda do Tejo. Mas pesca-se pouca tainha porque o Tejo vem sujo. De Alcochete. Por isso devem-me dinheiro. A mim e aos 600 mil que ficaram desempregados e aos 600 mil que ainda vão ficar sem trabalho. E à D. Isabel que vai a esta hora da noite ou do dia na limpeza de mais um escritório. Normalmente limpa três. E duas vezes por semana vai ao Banco Alimentar. E se está perto vai a um refeitório das Misericórdias. À Sexta come muito. Porque Sábado e Domingo estão fechados. E quando está doente vai para o centro de saúde às 4 da manhã. E limpa menos um escritório. E nessa altura ganha menos que o ordenado mínimo. Por isso devem-nos muito dinheiro. E não adianta contratar o Cobrador do Fraque. Eles não têm vergonha nenhuma. Vai ser preciso mais para pagarem. Muito mais. Já. 
Mário Crespo
(fonte: Revista Penthouse a partir de http://www.slideshare.net/dopama/mrio-crespo-penthouse-07 )

terça-feira, novembro 16, 2010

Dez razões para pôr fim à NATO (OTAN)

Para além das exorbitantes despesas que acarreta (veja-se o que virá fazer a um país em bancarrota como é Portugal), aqui ficam outras dez razões(créditos para Pimenta Negra):

"Há 60 anos atrás foi criada a NATO para organizar a defesa dos Estados da Europa Ocidental e da América do Norte face à União Soviética. O fim da guerra fria retirou a razão de existir da NATO que, assim, ficou repentinamente sem inimigo. Começou, então, a reconversão dos seus objectivos políticos e militares a fim de justificar a sua existência. Na cimeira de Washington de 1999 redefiniu-se a estratégia da Aliança. Foi assim que, com a desculpa de contribuir para a estabilidade e a paz mundial, os líderes dos Estados membros decidiram ampliar o seu raio de acção de forma ilimitada para todo o planeta. Atrás desta mudança de estratégia está logicamente a vontade de controlar as zonas produtoras de recursos naturais de maior importância geoestratégia. Em 2002 na cimeira da NATO em Praga incorpora-se a luta contra o terrorismo internacional como um dos objectivos fundamentais e adopta-se a doutrina da guerra preventiva de Bush, o que colocou a Organização numa posição vulnerável face ao direito internacional.
Ora a melhor política de segurança é aquela que impossibilita a guerra. Para conseguir um mundo em paz, e mais justo, torna-se indispensável a dissolução da NATO.
Quais são as 10 razões que fazem da NATO um obstáculo para a Paz Mundial :

1) A NATO é o bloco militar mundial mais agressivo e mais belicista que potencia o aparecimento de novas guerras.
Com efeito, a NATO é uma organização militar que, desde 1999, decidiu abandonar o carácter defensivo da região do Atlântico Norte para adoptar uma estratégia ofensiva capaz de intervir militarmente em qualquer lugar do mundo. Tais intervenções militares podem provocar reacções em cadeia e a formação de novos blocos militares.
2) A NATO é uma organização não-democrática.
As decisões no seio da NATO são aprovadas fora de qualquer controle democrático, à margem dos parlamentos e instituições democráticas dos Estados membros, estando também sob o comando militar dos Estados Unidos da América. Uma resultante desse facto é que a NATO coage e restringe a política exterior dos Estados membros.
3) A NATO é, e tem sido, uma ameaça para a democracia.
A NATO aceitou que Estados não-democráticos tivessem sido seus membros, como foi o caso do Estado português da ditadura salazarista e do Estado grego da ditadura dos coronéis. A NATO participou também em conspirações e golpes antidemocráticos, assim como na manipulação da opinião pública. Ainda hoje fazem parte da NATO certos Estados pouco democráticos. O caso mais conhecido é o da Turquia.
4) A NATO tem como objectivo estratégico a guerra contra o terrorismo.
Uma vez desaparecida a URSS, a NATO ficou sem inimigo. Mas em vez de decidir dissolver-se inventou uma novo inimigo, o chamado terrorismo internacional. E foi com esse pretexto que interveio na guerra do Iraque em 2001, e agora no Afeganistão.
5) A NATO impulsiona e estimula novas corridas de armamento, e é por si mesma a ilustração mais viva do que é a militarização do mundo.
O aumento continuado dos arsenais dos países da NATO provoca o rearmamento reactivo de países como Rússia, China, Irão,…, assim como dos países que se consideram como seus rivais. A consequência de tudo isso é a crescente militarização do planeta.
6) A NATO é responsável pelo incremento das despesas militares, do crescimento da indústria e do comércio de armas a nível mundial.
O rearmamento constante dos Estados Unidos, assim como dos exércitos dos Estados membros da NATO, provoca um aumento contínuo das despesas militares, e promove a pesquisa em novas armas, assim como das indústrias que as produzem e do comércio que as vende. Não é, pois, de surpreender que os países da NATO representem 75% do total das exportações de armas no mundo.
7) A NATO promove a proliferação e a ameaça de guerras nucleares.
Os Estados Unidos possuem armamento nuclear em bases militares em solo europeu o que expõe os países europeus ao perigo de uma guerra nuclear.
8) A NATO define a imigração descontrolada como uma ameaça.
Toda esta estratégia de busca de novos inimigos e de ameaças imaginadas faz com que a NATO considere a imigração como uma ameaça. Esta postura de uma organização militar como é a NATO deve merecer a nossa maior preocupação
9) A NATO perpetua a tutela dos Estados Unidos da América sobre os Estados europeus e a política europeia.
Os governos europeus aceitam estar subordinados, através da NATO, aos interesses do complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Esta situação impossibilita que a Europa assuma a função de promotora dos objectivos da Carta das Nações Unidas como o de evitar a eclosão de novas guerras. Para que isso seja possível torna-se indispensável a dissolução da NATO.
10) A NATO tem como função principal a defesa dos privilégios e dos interesses dos Estados mais ricos do mundo.
Esta é, indiscutivelmente, a razão mais importante para a subsistência desta organização militarista como é a NATO. O sistema sócio-económico dos países ricos exige o fornecimento permanente de matérias-primas que são vitais para manter o seu modelo económico que se mostra cada vez mais insustentável. A NATO é o instrumento militar que garante esse fornecimento, mediante o controle militar sobre os recursos e as regiões do planeta que são exploradas em benefício de um sistema depredatório e injusto."

E, a propósito, apetece lembrar Bob Dylan, em Masters of War.



SENHORES DA GUERRA (Masters Of War) – de Bob Dylan

Venham senhores da guerra
Vocês que constroem as grandes armas
Vocês que constroem os aviões da morte
Vocês que constroem todas as bombas
Vocês que se escondem atrás das paredes
Vocês que se escondem atrás das mesas
Eu só quero que vocês saibam
Que eu consigo ver para além das vossas máscaras

Você que nunca fez nada
A não ser ajudar a destruição
Você brinca com o meu mundo
Como se fosse o seu pequeno brinquedo
Você coloca uma arma na minha mão
E esconde-se da minha vista
E se vira e corre para longe
Quando as rajadas de balas voam

Como o velho Judas
Você mente e engana
Uma guerra mundial pode ser vencida
Você quer que eu acredite
Mas eu consigo ver para além dos seus olhos
E consigo ver para além da sua mente
Como vejo através da água
Que escorre pelo meu ralo

Vocês aprontam os gatilhos
Para os outros atirar
Logo vocês se afastam e assistem
Enquanto a contagem dos mortos aumenta
Vocês escondem-se nas suas mansões
Enquanto o sangue dos jovens
Escorre pelos seus corpos
E são enterrados na lama

Vocês lançaram o pior dos medos
Aquele que é criado
Medo de trazer crianças
Para o mundo
Por ameaçarem meu filho
Ainda por nascer e sem nome
Vocês não valem o sangue
Que corre pelas vossas veias

O quanto que eu sei
Para falar fora de hora?
Vocês podem dizer que sou jovem
Vocês podem dizer que sou aprendiz
Mas há uma coisa que eu sei
Embora eu seja mais novo que vocês
Nem Jesus jamais poderia
Perdoar o que vocês fazem

Deixem-me fazer-vos uma pergunta
Será que o vosso dinheiro é mesmo tão forte?
Será que ele comprará o vosso perdão?
Você acredita que pode?
Acho que irão descobrir
Quando a morte vos tocar
Que todo o dinheiro do mundo
Não comprará de volta a vossa alma

E eu espero que vocês morram
E que a vossa morte venha depressa
Seguirei o vosso caixão
Na tarde pálida
E assistirei enquanto o abaixarem
Para o seu leito de morte
E ficarei de pé sobre o vosso túmulo
Até ter certeza que estão mortos