
Para quem não sabe, está a decorrer a “Feira de Silves”. Trata-se da feira anual, a da venda dos produtos agrícolas, dos frutos secos, dos peros de Monchique, dos colares de “boletras”, da castanha assada e do polvo assado também; das alfaias agrícolas e dos instrumentos domésticos, dos brinquedos de madeira e de lata, dos gados, das barracas de comes e bebes, e dos divertimentos.
Para a malta nova, era sobretudo dos divertimentos, para além de todas estas coisas que nos ficam na memória dos cheiros.
Os primeiros divertimentos a chegar eram as barracas dos “bonecos”, nomeadamente a do ”Vasquinho”. Eu explico: os “bonecos” são os comummente conhecidos por “matraquilhos”; já agora também explico quem era o “Vasquinho”, era um encarregado de fazer trocos, de desencravar o mecanismo de saída das bolas e retirar as moedas falsas, e de apalpar os instrumentos que se encontram entre as virilhas dos moços. Alguns que se deixavam apalpar mais abundantemente, teriam jogadas de borla...
Durante todo o ano, só havia cá na terra uma mesa de “jogar aos bonecos”, que era na “Casa da Mocidade” (no Sindicato dos Corticeiros, só havia ping-pong), de modo que nesta época era um “tirar a barriga de misérias”.
Depois começavam a chegar os carrosséis, as pistas de automóveis e de aviões, o “comboio fantasma” e os circos. O Circo Alegria e o Circo Royal. Dos carrosséis, também havia um “Alegria”, do outro já falo mais à frente.
Quem tinha pais mais abonados ou a quem dar uns “pontapés na gaveta” (eu ia sempre ajudar as minhas tias na mercearia e na “casa de pasto” e levar um objecto de loiça à “Madrinha D. Aurora"), tendo alguma ousadia e acertando no par certo, poderia convidar alguma ou algumas moças para andar nos carrinhos de choque, nos aviões ou no combóio fantasma. Eram das poucas oportunidades que tínhamos, para além dos bailes, de lhes encostar as pernas (empernar) e passar a mão por cima dos ombros, sem ter que entrar naquela de “pedir namoro”. Os outros, menos abonados limitavam-se a uns jogos de “bonecos” e a umas voltas de carrossel, saltando em corrida quando chegava o cobrador...
Consoante o dia da semana a que calhava o feriado de 1 de Novembro, assim a feira começava mais cedo ou acabava mais tarde.
Era um acontecimento anual tão importante, mesmo para os afastados da terra, especialmente dos que emigraram para a margem sul do Tejo ou mesmo para Lisboa, que era mais comum virem “à Terra” pela Feira do que pelo Natal.
Era também muito importante para o “Professor Verdasca”, o Delegado Escolar, que se encarregava dos “atrasados” de todas as classes, ao ponto de ter desde o início do ano a mesma frase escrita no quadro, para a malta soletrar: ”A-fei-ra-es-tá-a-che-gar”.
Passada a Feira, mudava a frase mas a malta continuava a soletrá-la. Então ele exaltava-se: “A Feira já passou, seus burros, agora a frase já é outra!”.
Esta era a Feira da “Cerca da Feira”, onde também se realizava a feira mensal, designada por “mercado”, à terceira 2ª feira de cada mês e onde se “jogava à bola”, nos “furos” do horário ou quando algum professor faltava (isto muito antes de haver aulas de substituição...).
A “Cerca da Feira”, que ainda hoje assim se chama, já é, há muitos anos, um bairro habitacional. Daí, a Feira passou a realizar-se à entrada da cidade, entre o antigo espaço do “Moinho da Porta” (hoje bela entrada da cidade – Largo Al Muthamid” – (se não se escreve assim o meu irmão depois corrige-me) e o Largo do “Poço da Câmara”. Depois passou para a Beira-Rio; agora, este ano, para a parte de trás do cemitério...
Ainda não fui à Feira (hei-de ir hoje lá para o fim da tarde) mas pelos comentários que tenho ouvido, parece-me que agora é que ela “morreu”... (Até a moçada em vez de ir à Feira, anda por aí a brincar ao “dia das bruxas”...).
Ainda só ouvi um comentário entusiástico, mas que remonta à saudade, a uma saudade muito remota. O meu irmão Toy já me telefonou outro dia, estava eu ainda de fim de semana no Miratejo, a comunicar-me que o “Carrossel Oito” tinha voltado; mais ainda, que o dono do “Carrossel Oito” é, agora, o filho do Zé Martins, antigo artista do “Poço da Morte” em “bicicleta a pedal”... Mas esta contará ele certamente no seu Blog.
Agora, que já despejei o que me andava a rabiar cá por dentro, desde que fui esta manhã à Praça e a senhora que me vendeu as vagens me disse: “ai menino, a feira já não é o que era...”, vou abrir os berbigões e regalar-me com eles, com um verde branco “Via Latina”, antes que não os haja na feira, para acompanhar um “Verde à Pressão”, “Ypiranga”...
Este Flash é para todos a quem tenho mandado “Flashes” e muito em especial para a Sofia, que ontem me “mailou” com saudades da feira...
Ah! Querem saber quem é a Sofia... Eu explico, ela não se importa: a Sofia “empernava” com o meu irmão Fernando.
Zé Baeta

















